sábado, 20 de setembro de 2014

Mini-Crônicas #4


Cinco de Setembro

Os pássaros fizeram-se ouvir como presságios do amanhecer e eu me guiava sonolento para fora da cama. O meu despertar foi velado pela sombria hora que precede os primeiros raios de sol, uma verdadeira e gélida cortina que serve de prelúdio ao novo dia. Já na cozinha, pus-me a preparar meu café automaticamente. No gotejar do escuro líquido a ser filtrado, fui impelido a pensar em todos os vícios humanos que aquela xícara encerrava. Quisera eu me referir meramente à química da cafeína e dos açúcares - pensava no ritmo do mundo, pensava com pressa. Não era o aroma do grão que me assaltava a mente, mas sim a falta de tempo, a falta de propósito, a falta de sono que tornava aquela bebida tão vital. Em inúmeros anos de vida, não fui capaz, ainda, de desvendar minha demanda - a pluralidade das coisas entorpece meu senso de escolha. Frustração não nomeia essa sensação arraigada ao gênero humano ao longo dos milênios, muito menos esse meu senso de urgência por algo desconhecido. 
No mundo real, o impacto das gotas fumegantes reverberava como brados furiosos de antigas guerras, talhavam em mim profundas lembranças de épocas sem medo - tempos que desconfio nunca terem havido, mas para os quais fugia em busca de conforto e pertencimento. No limiar da consciência, sempre havia uma voz a me chamar - uma voz que sussurrava em tons nebulosos de mistério, além do alcance do meu eu, as mais doces cantigas. Haveria então algo de bom em nós? Estranhamente, duvidava. Sentia que a apoteose do desejo era neutra, plácida e perpétua. Tudo se resumia a um delicado balanço, um dinâmico equilíbrio de poderes e vontades muito além do alcance de um mero homem. Era preciso ascender, lançar-se à busca por uma paz etérea. Senti meu coração pulsando, o sangue fluindo e retornando à fonte; inspirei profundamente o ar e lentamente o exalei e me dispersei junto a ele; tive a percepção do ambiente à minha volta, pude tocar os céus e enquanto sentia o chão sob meus pés. Era parte do todo - melhor: sempre o fui. Em uma imensidão especial imersa no oceano temporal, lá estava eu: único, grandioso, especial ao mesmo tempo que era apenas um ponto qualquer e invisível ao mundo. Pensei em todas as coisas que partilhavam do mesmo fim, o mesmo anonimato. Foi então que o sol invadindo a janela me despertou de meu devaneio, o café há muito esfriara. Corri para evitar o atraso, não bebi aquela xícara - tão logo buscaria as belezas do mundo.

G.F.M.V.

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