Os pássaros fizeram-se ouvir
como presságios do amanhecer e eu me guiava sonolento para fora da cama. O meu
despertar foi velado pela sombria hora que precede os primeiros raios de sol,
uma verdadeira e gélida cortina que serve de prelúdio ao novo dia. Já na
cozinha, pus-me a preparar meu café automaticamente. No gotejar do escuro
líquido a ser filtrado, fui impelido a pensar em todos os vícios humanos que
aquela xícara encerrava. Quisera eu me referir meramente à química da cafeína e
dos açúcares - pensava no ritmo do mundo, pensava com pressa. Não era o aroma
do grão que me assaltava a mente, mas sim a falta de tempo, a falta de
propósito, a falta de sono que tornava aquela bebida tão vital. Em inúmeros
anos de vida, não fui capaz, ainda, de desvendar minha demanda - a pluralidade
das coisas entorpece meu senso de escolha. Frustração não nomeia essa sensação
arraigada ao gênero humano ao longo dos milênios, muito menos esse meu senso de
urgência por algo desconhecido.
No mundo real, o impacto das gotas fumegantes
reverberava como brados furiosos de antigas guerras, talhavam em mim profundas
lembranças de épocas sem medo - tempos que desconfio nunca terem havido, mas
para os quais fugia em busca de conforto e pertencimento. No limiar da
consciência, sempre havia uma voz a me chamar - uma voz que sussurrava em tons
nebulosos de mistério, além do alcance do meu eu, as mais doces cantigas. Haveria
então algo de bom em nós? Estranhamente, duvidava. Sentia que a apoteose do
desejo era neutra, plácida e perpétua. Tudo se resumia a um delicado balanço, um dinâmico equilíbrio de poderes e vontades muito além do alcance de um mero homem. Era preciso ascender, lançar-se à
busca por uma paz etérea. Senti meu coração pulsando, o sangue fluindo e
retornando à fonte; inspirei profundamente o ar e lentamente o exalei e me dispersei
junto a ele; tive a percepção do ambiente à minha volta, pude tocar os céus e
enquanto sentia o chão sob meus pés. Era parte do todo - melhor: sempre o fui.
Em uma imensidão especial imersa no oceano temporal, lá estava eu: único,
grandioso, especial ao mesmo tempo que era apenas um ponto qualquer e invisível
ao mundo. Pensei em todas as coisas que partilhavam do mesmo fim, o mesmo
anonimato. Foi então que o sol invadindo a janela me despertou de meu devaneio, o café há muito
esfriara. Corri para evitar o atraso, não bebi aquela xícara - tão logo
buscaria as belezas do mundo.
G.F.M.V.

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