terça-feira, 2 de setembro de 2014

Mini-Crônicas #2


Memento Parvus

Era apenas uma noite como outra qualquer, daquelas em que brota de nosso interior uma ânsia por algo sem nome e completamente desconhecido - um desejo que nos inquieta. Deitado em minha cama e isolado da realidade pelos fones que entoavam cantos e melodias agora distantes e disformes, tive a sensação do que talvez fosse essa a mais perfeita personificação daquilo que chamamos de tédio - nada parecia importar de fato. É nesses momentos que, por vezes, o mundo ao redor some, o silêncio reina, o olhar não se foca e a respiração parece ser o único marcador do tempo - faz-se o sonhar acordado. Porém, num lampejo de sobriedade, tento entender o que penso e, tão logo o faça, tudo se esvai. Como que recém desperto de um eterno sono, volto a mim sem entender realmente o ocorrido. A inspiração acabara de me escapar por entre os dedos... estava tão próxima... Em um mundo onde o sentimentalismo progressivamente rareia, tal perda estranhamente me abalou. O que era de fato, nunca viria realmente a saber - apenas compreendia que tinha sido aquela uma relaxante expressão de pureza. Por poucos segundos, fui capaz de ver além das máscaras de bem e mal, além das glórias e chagas humanas - vi uma realidade livre de tudo, inclusive de propósito. Afinal, como considerar relevantes nossas ações, se nem mesmo o colapso de galáxias afeta a totalidade das coisas? Não, não devemos pensar em grandezas... somos, em verdade, extremamente pequenos, inexpressivos. Tudo o que fazemos somente pode importar para nós próprios, é disso que se tratam as coisas humanas. Nesse momento, um leve sorriso tomou minha face de assalto, fui preenchido com certa dose de orgulho e realização - enfim havia encontrado um pouco de mim. Rolei para o lado e do modo como parei adormeci. No despertar do relógio pela manhã, a rotina havia recomeçado.

G.F.M.V

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