segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Drops Poético #6


(Sem Título)

Vejo o tempo passar em ondas
Ora estou por cima, ora por baixo
Por mais que tente me impor, sou levado
As correntes me arrastam a seu bel prazer
Potentes, gélidas, férreas...
Dia após dia, do começo ao fim das horas
No intervalo da minha vida...
Por vezes, me lançam aos ares
Inspiro e vivo a beleza do voo
E tão de súbito me puxam às profundezas
Escuras... de instigantes e oblíquos mistérios
Vivo sem saber a profundidade do mergulho
Sem saber a altura das nuvens...
De média, a vida é linear, sem graça
Sempre prevejo a próxima oscilação.
Parece-me bem simples a vontade maior
Mas seria eu menor que ela?
O tempo é poderoso, mas não controla minha vontade
Minha mente se sobrepõe a tudo
Minha alma é maior que tudo
Maior que mim, maior que as coisas
Mas ainda assim é menor que o nada
Este sim é soberano... livre... perfeito...
Apenas aguardando por aqueles curiosos homens
Os únicos capazes de quebrar os grilhões do destino!

G.F.M.V.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Drops Poético #5


Declaração

Quisera eu
No meio de flores e regalos 
Praças, jardins e sementes 
Falar de mim, falar da gente 
E da aurora de outros tempos 
E da ânsia de querer falar me lanço 
Me dispo e amplamente me enlaço 
À vontade de poder estar 
Repousado em caloroso abraço 
À luz que vem de além do mar
Para que como fênix renascido 
Meio ao calor do laço reforjado 
Faça com que o desejo esquecido 
Em nosso vazio abarrotado
Possa enfim rever o sol 
E em seu júbilo iluminado 
Se expandir além das barreiras sonhadas 
Acalentando corpo, alma e mente 
Tornando-me o sentimento, este ente 
Que permeia e emana de ti, pessoa amada

G.F.M.V.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ensaios #2


Song Of Myself

Folhas em branco abrigam um potencial latente, mas por si só são banais. É o destino que talha a matriz para lhe conferir importância, a aleatória ação do cosmos que preenche lacunas de maneiras virtualmente diferentes; espaço, tempo, vontade são grandezas independentes que se desdobram em planos distintos e que se fundem na materialização da realidade. Corpo alterável, força inalienável e subjetivismo são os componentes do ser. 
O homem é um vértice dimensional. Conectivo entre material e etéreo que se ergue na condição de organismo biológico, parte do fluxo energético, parte do universo. Contudo, somos também alma, consciência, paradoxo místico e carnal. Fato é que desconhecemos o lado que nos faz existir. Nesse labirinto atemporal, buscamos a identidade do eu e velamos constantemente teorias que não se manifestam em tinta sobre o papel.
O que somos? O que ser? O que poder ser? Com uma mente que encontra um limite ao tentar mensurar a própria grandeza, o homem se perde. Ao mergulhar na escuridão da consciência, somos assaltados por sonhos seculares: paz, felicidade e desejo, solidão e companhia, serenidade, equilíbrio. O que quer de fato o homem? São as perguntas que fazemos que inquietam nosso espírito, mas são as respostas que devastam o mundo. Arrogância humana achar saber de algo, tudo fatalmente se prova errado - não há verdade que sobreviva ao tempo.
Existir por existir? Que mal haveria? Aceitar que os segredos se resumem neles próprios é a chave para a resposta. O que é a vida? Respondo vida, e quem haveria de encontrar um erro? Falar por parábolas frequentemente ilude, pois esconde o óbvio. O ser é o fim dele próprio. Se engajar numa busca pelo próprio eu é a demanda de todo homem e o único caminho viável para o conhecimento da verdade e do amor.

G.F.M.V.              (28/11/2012) Adaptado

Ensaios #1


Tempestade

Encontro em mim uma enseada de águas rasas, cercada de montanhas e horizontes infinitos; acima dela um céu repleto de fornalhas nucleares, corações de pura energia pulsante. Uma visão de sonho anterior ao próprio tempo, na qual o significado das coisas é efêmero e ao mesmo tempo eterno. Ínfima é minha grandeza e imensurável é aquilo que há para se descobrir. Uma onipotente impotência que todo homem sente ao admirar o céu. 
É inerente ao cosmo que haja ordem; logo, qual a lei que a tudo rege? Pois digo que não há. Tudo aquilo que existe e flui é desregrado; entretanto, ainda reina a ordem. Fatos não pressupõem explicações, somente a existência de algo a ser contemplado, admirado e utilizado. Criamos, de fato, uma lógica ilusória; axiomas plenamente dogmáticos. Somos feitos de tolos por nossas próprias palavras, pois nada é, realmente, da maneira como percebemos. Nos escapa a quintessência natural das coisas. 
Ao subir os olhos à escuridão plangente que nos rodeia, vemos quão paradoxal é a realidade. Poderia, de fato, todo aquele vazio estar repleto de energia e conceitos que desafiam nossa compreensão? Aliás, que compreensão? Somos mentes perdidas em busca de amparo, de reconhecimento. O que sabemos das reais verdades senão a singela premissa de sua existência? Ao menos cinco sentidos humanos e nenhum capaz de captar as mais simplórias e superficiais essências.
Somos parte do fluxo, nunca sua totalidade. Nos embrenhamos em rotas infinitas e desbravamos caminhos impensáveis, mas sem nunca alterar a lógica maior; ela é alheia a nós. Somos agentes de missões hedonistas, filhos da mais ancestral das ânsias, artífices da real felicidade. Somos criadores de mundos e relicários de universos singulares, moldados à vontade do acaso e eternamente talhados pela percepção.

G.F.M.V.

sábado, 20 de setembro de 2014

Mini-Crônicas #4


Cinco de Setembro

Os pássaros fizeram-se ouvir como presságios do amanhecer e eu me guiava sonolento para fora da cama. O meu despertar foi velado pela sombria hora que precede os primeiros raios de sol, uma verdadeira e gélida cortina que serve de prelúdio ao novo dia. Já na cozinha, pus-me a preparar meu café automaticamente. No gotejar do escuro líquido a ser filtrado, fui impelido a pensar em todos os vícios humanos que aquela xícara encerrava. Quisera eu me referir meramente à química da cafeína e dos açúcares - pensava no ritmo do mundo, pensava com pressa. Não era o aroma do grão que me assaltava a mente, mas sim a falta de tempo, a falta de propósito, a falta de sono que tornava aquela bebida tão vital. Em inúmeros anos de vida, não fui capaz, ainda, de desvendar minha demanda - a pluralidade das coisas entorpece meu senso de escolha. Frustração não nomeia essa sensação arraigada ao gênero humano ao longo dos milênios, muito menos esse meu senso de urgência por algo desconhecido. 
No mundo real, o impacto das gotas fumegantes reverberava como brados furiosos de antigas guerras, talhavam em mim profundas lembranças de épocas sem medo - tempos que desconfio nunca terem havido, mas para os quais fugia em busca de conforto e pertencimento. No limiar da consciência, sempre havia uma voz a me chamar - uma voz que sussurrava em tons nebulosos de mistério, além do alcance do meu eu, as mais doces cantigas. Haveria então algo de bom em nós? Estranhamente, duvidava. Sentia que a apoteose do desejo era neutra, plácida e perpétua. Tudo se resumia a um delicado balanço, um dinâmico equilíbrio de poderes e vontades muito além do alcance de um mero homem. Era preciso ascender, lançar-se à busca por uma paz etérea. Senti meu coração pulsando, o sangue fluindo e retornando à fonte; inspirei profundamente o ar e lentamente o exalei e me dispersei junto a ele; tive a percepção do ambiente à minha volta, pude tocar os céus e enquanto sentia o chão sob meus pés. Era parte do todo - melhor: sempre o fui. Em uma imensidão especial imersa no oceano temporal, lá estava eu: único, grandioso, especial ao mesmo tempo que era apenas um ponto qualquer e invisível ao mundo. Pensei em todas as coisas que partilhavam do mesmo fim, o mesmo anonimato. Foi então que o sol invadindo a janela me despertou de meu devaneio, o café há muito esfriara. Corri para evitar o atraso, não bebi aquela xícara - tão logo buscaria as belezas do mundo.

G.F.M.V.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Mini-Crônicas #3


Alma Gêmea

Meu corpo pendia embalado pelo balanço da rede e por feixes silenciosos e cadentes de luar. O ar, ainda tomado pelo doce cheiro de incenso queimado, carregava certo ar de mistério, mas em mim habitava tamanho vazio que nada ali podia se esconder. Minhas mãos eram levadas a tocar sua pele e ela, inconsciente, suspirava e se agarrava a mim. Mas, estranhamente, o calor daquele abraço - que hora fora inebriante - gelava. Nossas respirações em dissonância me sopravam para longe - até um universo íntimo e isolado onde ninguém além de mim já havia sido capaz de perscrutar. Foi nele que triste fui constatar que é mesmo a solidão a mácula do poeta. De tão distinto do mundo se faz ao pensar a vida que não há alma que lhe faça par. Apenas lhe restam as paixões dispersas e diminutas, incapazes de saciar a ânsia por pertencimento. A volúpia por si só não contenta sem amor que lhe baste e lhe alimente a chama e, assim sendo, não há lógica no sexo sem emoção. O prazer transcende a carne, é fruto da mente, tal qual o êxtase do orgasmo. Maior que o contato das peles, é o enlaçamento das almas - chave para o desbravamento das maiores e mais insondáveis sensações. Mas não há só um poeta, apenas poetas sós. Vagantes do mundo dos sonhos e habitantes do mundo da carne, são eles que abrem as estradas aos pensantes e que despertam a luz no coração dos homens. São o verdadeiro elo com o divino humano - o supremo potencial criativo. Na noite fria, minha pele eriçada clama por aconchego e companhia de alguém singular e ainda escondido no vasto mundo. Quantas milhas ainda me separavam de nosso encontro? Isso só os desígnios do destino eram capazes de responder; minha única certeza era a necessidade de tê-la. Afinal, é somando dois ímpares que se tem um par. 

G.F.M.V

Drops Poético #4


Memento Mori 

É na finitude que sempre esbarramos
Ao tentar mensurar humanas grandezas
Não é de nossa natureza a onipotência
E sobre isso aja, pense e tão logo esqueça

Que os medíocres herdem o mundo
Com suas sádicas e seduzentes miragens
O tempo clama por uma demanda mais profunda
Não, não viveremos a eternidade

Nem o intervalo de um suspiro nos pertence
Ao contrário, é ele que nos esgota
Lentamente nos corrói, nos desgasta...
Fatalmente, o tempo tudo ao pó retorna

Tão logo entendas, peço que viva o agora
Cante as canções da vida, os seus acordes...
Semeie as virtudes que bem lhe fazem
Que as colherá nos caminhos além da morte

G.F.M.V


Drops Poético #3


A Rocha

Havia na ilha uma casa
Incrustada no rochedo
Com paredes, janelas e telhado
E ainda carente em portas
Nela se quebravam ondas
E nela se partia o mar
Cresciam corais de sonhos
Algas de puro desejo
Velhas cracas de sabedoria...
E o mar a rodeava
Com seus azuis belos e abissais
De águas fervilhantes
De onde se via busto e semblante
Da escuridão que nos vinha abarcar
Encerrando os antigos mistérios
Do homem, do universo e da alma
Mas a casa, sem porta, resistia
A cada onda de investida do mar
E a cada novo tormento
Mais de pé parecia estar
A fortaleza do rochedo
A solitária sentinela
Os tímidos olhos do amanhã

G.F.M.V

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Mini-Crônicas #2


Memento Parvus

Era apenas uma noite como outra qualquer, daquelas em que brota de nosso interior uma ânsia por algo sem nome e completamente desconhecido - um desejo que nos inquieta. Deitado em minha cama e isolado da realidade pelos fones que entoavam cantos e melodias agora distantes e disformes, tive a sensação do que talvez fosse essa a mais perfeita personificação daquilo que chamamos de tédio - nada parecia importar de fato. É nesses momentos que, por vezes, o mundo ao redor some, o silêncio reina, o olhar não se foca e a respiração parece ser o único marcador do tempo - faz-se o sonhar acordado. Porém, num lampejo de sobriedade, tento entender o que penso e, tão logo o faça, tudo se esvai. Como que recém desperto de um eterno sono, volto a mim sem entender realmente o ocorrido. A inspiração acabara de me escapar por entre os dedos... estava tão próxima... Em um mundo onde o sentimentalismo progressivamente rareia, tal perda estranhamente me abalou. O que era de fato, nunca viria realmente a saber - apenas compreendia que tinha sido aquela uma relaxante expressão de pureza. Por poucos segundos, fui capaz de ver além das máscaras de bem e mal, além das glórias e chagas humanas - vi uma realidade livre de tudo, inclusive de propósito. Afinal, como considerar relevantes nossas ações, se nem mesmo o colapso de galáxias afeta a totalidade das coisas? Não, não devemos pensar em grandezas... somos, em verdade, extremamente pequenos, inexpressivos. Tudo o que fazemos somente pode importar para nós próprios, é disso que se tratam as coisas humanas. Nesse momento, um leve sorriso tomou minha face de assalto, fui preenchido com certa dose de orgulho e realização - enfim havia encontrado um pouco de mim. Rolei para o lado e do modo como parei adormeci. No despertar do relógio pela manhã, a rotina havia recomeçado.

G.F.M.V

Mini-Crônicas #1

Manhã de Agosto

O dia amanheceu como uma vaga lembrança, se é que o sol era capaz de tocar aquele lugar. Fui momentaneamente tragado pelo toque suave de sua cabeça em meu peito e pelo perfume da volúpia que permeava o ambiente e exalava de nossos corpos – apenas um lembrete de quão indômitos são os jovens espíritos. Cercado pela penumbra e por objetos que remetiam a um mundo que era somente dela, pude sentir o calor que fluía de onde nossa pele se tocava; permanecíamos – ainda – no mesmo luxurioso abraço no qual havíamos sucumbido à exaustão, o mais sublime e humano dos enlaces. Busquei – então – mergulhar no pacífico semblante da criatura adormecida em meus braços; esperava compreender como tão bela e inocente entidade podia carregar, em sua alma, tamanhos e cruéis pecados. Tentava enxergar a razão que encerrava a essência daquele ser, mas quanto mais acreditava me aprofundar em seus segredos, mais me prendia a seus encantos e deles não cogitava fugir. Na manhã enegrecida pelos pelas nuvens de outono, perdi-me em meu silencioso devaneio, como que em respeito às questões flutuantes em minha mente. E de tanto fitar a sutileza do instante, perdi-me do tempo. Foi quando olharam para mim um par de olhos recém despertos;de me entregar a eles, perdi-me de mim mesmo.  

G.F.M.V

Drops Poético #2


Perdição

É de admirar que tão doce canção não lhe toque a alma.
De tão singelo alarde fizeste tua estrada, mas nela receia por o pé.
O que temes, senão o erro de tua jornada?
Pensava eu que residia na vitória tua fé.

Ou agora compreendes que já estás derrotada?
Desde que meu canto não mais tocou-te a alma,
Caíste, com tão curta queda, do pedestal de tua glória
Apagaram-se as etéreas luzes que te iluminavam outrora  

E agora? No silêncio escuro do quarto não mais te tocam o seio
E sei que sozinha não é capaz de atingir o despertar de teu anseio
Sentes, tarde, saudade de nosso devaneio de sensual doçura
E de acalentar nos lábios um beijo na hora mais escura

Percebes, enfim, que sem nós não haverias de ser nada
Além do destino final de uma viagem mal fadada
Ora rendida à cruz, ora à espada
E aos devaneios em lembrança amada.

G.F.M.V

Drops Poético #1




Atalaia de mim

Sou filho do mundo, não filho das feras
Vivo do ar, da água da terra
E do fogo de amores juvenis
Corro os pés nos campos descalços
Molhados de orvalho matinal
Resolutos no mistérios da vida
Como se cada folha de outono ressequida
Fosse guardiã do segredo universal

Escuto o sussurro nos ares da mudança
Alheia à dança do mundo, vã esperança
De que haja sentimento por si só
Enquanto isso, procurando vou perder-me
Da vida, dos amores e de mim
Retornando à singela premissa
De que a única verdade que em vida se avista
É de que a busca jamais encontra fim

G.F.M.V