quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Mini-Crônicas #3


Alma Gêmea

Meu corpo pendia embalado pelo balanço da rede e por feixes silenciosos e cadentes de luar. O ar, ainda tomado pelo doce cheiro de incenso queimado, carregava certo ar de mistério, mas em mim habitava tamanho vazio que nada ali podia se esconder. Minhas mãos eram levadas a tocar sua pele e ela, inconsciente, suspirava e se agarrava a mim. Mas, estranhamente, o calor daquele abraço - que hora fora inebriante - gelava. Nossas respirações em dissonância me sopravam para longe - até um universo íntimo e isolado onde ninguém além de mim já havia sido capaz de perscrutar. Foi nele que triste fui constatar que é mesmo a solidão a mácula do poeta. De tão distinto do mundo se faz ao pensar a vida que não há alma que lhe faça par. Apenas lhe restam as paixões dispersas e diminutas, incapazes de saciar a ânsia por pertencimento. A volúpia por si só não contenta sem amor que lhe baste e lhe alimente a chama e, assim sendo, não há lógica no sexo sem emoção. O prazer transcende a carne, é fruto da mente, tal qual o êxtase do orgasmo. Maior que o contato das peles, é o enlaçamento das almas - chave para o desbravamento das maiores e mais insondáveis sensações. Mas não há só um poeta, apenas poetas sós. Vagantes do mundo dos sonhos e habitantes do mundo da carne, são eles que abrem as estradas aos pensantes e que despertam a luz no coração dos homens. São o verdadeiro elo com o divino humano - o supremo potencial criativo. Na noite fria, minha pele eriçada clama por aconchego e companhia de alguém singular e ainda escondido no vasto mundo. Quantas milhas ainda me separavam de nosso encontro? Isso só os desígnios do destino eram capazes de responder; minha única certeza era a necessidade de tê-la. Afinal, é somando dois ímpares que se tem um par. 

G.F.M.V

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